Alterações fisiológicas e patológicas comuns no processo de envelhecimento e a contribuição do Método Pilates como exercício físico

Publicada em 12/05/2015


Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), é considerado idoso o indivíduo com idade acima de 65 anos em países desenvolvidos e acima de 60 anos em países subdesenvolvidos.  

De acordo com dados do IBGE, a população idosa no Brasil é atualmente de 22,9 milhões (11,34% da população) e a estimativa é de que nos próximos 20 anos esse número triplique.

 O aumento da expectativa de vida no Brasil vem crescendo, principalmente entre a população feminina. Para homens esta expectativa fica em torno de 71,3 anos, enquanto que para mulheres 78,6 anos.

Qual a importância destes dados para os profissionais da área da saúde?

A população está ficando mais velha, e se mantendo ativa e produtiva até uma idade mais avançada. Existe uma crescente preocupação com a promoção de um envelhecimento saudável, a fim de manter o máximo da capacidade funcional de cada indivíduo.

É nosso papel, como profissionais da área da saúde,estimular a aquisição, manutenção e reabilitação dessas capacidades funcionais, nos adultos maduros e nos idosos, evitando assim uma velhice dependente e não funcional.

O envelhecimento

O envelhecimento humano é um fenômeno natural e biológico que começa na concepção e termina na morte. Ele se manifesta pelo declínio das funções de diversos órgãos e sistemas.  O ritmo deste declínio varia, não apenas de um órgão para outro, mas também entre indivíduos da mesma idade, fazendo com que o envelhecimento seja diferente de uma pessoa para a outra.

De uma forma geral, todos nós passamos pelas mesmas fases de desenvolvimento do envelhecer, porém existem características específicas que variam de acordo com fatores genéticos, qualidade de vida e exposição a riscos.

Estudos sugerem que apenas 25% do ritmo do envelhecimento é ditado pela genética. O restante, 75%, corresponde à responsabilidade individual de cada um. A pesquisadora Ivana da Cruz, da UFSM, chama essa responsabilidade individual de Santíssima Trindade: nutrição, atividade física e estresse. 

O organismo envelhece como um todo. Declínios funcionais e biológicos são normais num processo saudável de envelhecimento.Naturalmente ocorrem alterações no nosso organismo:

  • Dos 30 aos 40 anos temos o máximo das funções orgânicas de nosso corpo;
  • Dos 40 aos 50 anos ocorre uma estabilização destas funções; 
  • Acima dos 50 anos, ocorre uma perda funcional progressiva de 1% ao ano;

Portanto, a velhice pode ser considerada a consequência natural do processo de envelhecimento, que com o avanço da idade, proporciona mudanças anatômicas e funcionais, porém não necessariamente patológicas.

Pode-se classificar o processo de envelhecimento de duas formas:

Senescência: envelhecimento natural que possibilita uma vida ativa, apesar de algumas limitações. O indivíduo consegue manter uma elevada capacidade funcional, física e cognitiva e uma postura ativa perante a vida e a sociedade. O adulto que envelhece de forma ativa tem mais chances de manter sua autonomia e sua independência.

Senilidade: envelhecimento anormal ou patológico que causa incapacidade progressiva para uma vida saudável.

Citaremos algumas alterações fisiológicas e patológicas esperadas no processo de envelhecimento, bem como os benefícios que o Método Pilates pode oferecer a estes alunos.  

É importante salientar que o presente texto é apenas introdutório nas patologias que atingem a maturidade, portanto indica-se um aprofundamento teórico específico no aluno que venha praticar o Método.

Além disso, recomenda-se a leitura da bibliografia citada ao final do texto para um aprofundamento do Método Pilates, seu histórico, seus benefícios e suas bases.

Envelhecimento do sistema Cardiovascular:

  • Acúmulo de gordura (sobretudo átrios e septo interventricular).
  • Degeneração muscular, com substituição de células miocárdicas por tecido fibroso.
  • Estreitamento e aumento da rigidez nas artérias.
  • Aumento de deposição de colágeno do endocárdio e pericárdio.
  • Alterações na elasticidade, distensibilidade e dilatação das artérias.
  • Alterações vasculares na aorta (arteriosclerose).
  • Menor capacidade de aumentar a frequência cardíaca (FC) e como consequência diminuição do débito cardíaco.

Algumas patologias mais freqüentes na população madura:

Hipertensão

Aumento da pressão arterial, em níveis superiores a 140mmHg para a pressão sistólica e 90 mmHg para a pressão diastólica. Está ligada a fatores como estresse, má alimentação, tabagismo, sedentarismo, entre outros.É causa frequente de alterações renais, AVC´s e infartos. Exige tratamento medicamentoso e monitoramento constantes. Devemos estar atentos a esses sintomas:

  • Tontura
  • Dor de cabeça e/ou na nuca
  • Enjoo
  • Zumbido no ouvido
  • Visão dupla
  • Palpitação
  • Escotomas cintilantes

Hipotensão ortostática

A hipotensão ortostática é uma redução excessiva da pressão arterial ao adaptar-se a posição vertical, o que provoca uma diminuição do fluxo sanguíneo no cérebro. A hipotensão ortostática não é uma doença específica, mas antes uma incapacidade de regular a pressão arterial rapidamente. Prevalece em torno de 6% nos idosos saudáveis e de 11 a 33% em idosos que apresentam alguma patologia ou que façam uso de alguma medicação. Nas pessoas de mais idade é perigosa por ser causa comum de quedas.

Aterosclerose

Acúmulo de gordura, colesterol e outras substâncias nas paredes das artérias, acarretando no seu estreitamento e consequente restrição no fluxo sanguíneo. Existem fatores de risco que podem agravar este quadro, que pode passarde fisiológico (arteriosclerose) para patológico (aterosclerose). 

São eles: Colesterol elevado, obesidade, tabagismo, sedentarismo e diabetes.

O principal benefício do Pilates, como exercício físico, é atuar na prevenção dos fatores de risco. Podemos esperar a redução do colesterol, aumento do débito cardíaco e consumo de oxigênio e a redução da pressão arterial.

Envelhecimento do sistema respiratório

  • Diminuição da elasticidade e da complacência dos pulmões.
  • Atrofia dos músculos esqueléticos acessórios da respiração.
  • Redução da caixa torácica.
  • Diminuição da ventilação pulmonar.

Tais alterações não são muito perceptíveis em repouso, mas sim, quando é realizado algum esforço, como durante o exercício físico.

As principais patologias que encontramos nessa população são as DPOC´s e a pneumonia.

DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) é uma limitação do fluxo aéreo pulmonar, geralmente por uma associação entre bronquite crônica obstrutiva e enfisema. O principal fator de risco para o desenvolvimento das DPOCs sem dúvida é o tabagismo.

Bronquite crônica obstrutiva: 

Inflamação crônica dos brônquios que se caracteriza por presença de tosse e expectoração na maioria dos dias por no mínimo 3m/ano durante 2 anos consecutivos.

Asma: 

É uma doença obstrutiva das vias aéreas, intermitente e reversível. Manifesta-se por um estreitamento das vias aéreas, resultando em dispnéia, tosse e sibilos.

Enfisema: 

Aumento dos espaços aéreos distais ao bronquíolo terminal, com destruição das paredes alveolares e consequências irreversíveis. 

Pneumonia:

Processo inflamatório do parênquima pulmonar, causada por vários microorganismos diferentes, incluindo vírus, bactérias, parasitas ou fungos. A mais comum é a pneumonia bacteriana, que tem como sintomas: 

  • febre;
  • calafrios;
  • dor no tórax 
  • tosse com expectoração (catarro) amarelado ou esverdeado e pode ter de sangue junto com secreção;
  • respiração dolorosa e curta, com presença de dispnéia e cianose labial;

Durante a prática do Pilates, focamos muito no princípio da respiração, na importância de respirar completa e profundamente. Esse trabalho de conscientização, aliado ao fortalecimento e alongamento da musculatura respiratória, proporciona melhora nas trocas gasosas e aumento do volume respiratório e da capacidade respiratória. Além disso, a melhora postural adquirida com a prática facilita a expansão e mobilidade da caixa torácica.

Envelhecimento do sistema músculo esquelético

  • Perda de massa óssea (sarcopenia), a partir da 4ª década de vida. Aos 50 anos as mulheres perdem em torno de 50% e os homens 17%. Essa diminuição é mais acentuada nos MsIs (60% para os músculos das pernas).
  • Diminuição na produção de líquido sinovial, acarretando em menor hidratação da cartilagem e lubrificação das articulações.
  • Alterações posturais, diminuição da força muscular e da flexibilidade.

Existem muitas patologias que aparecem em decorrência destas alterações, mas vamos citar as que mais se fazem presentes nos alunos que procuram pelo Pilates:

Osteoartrose:

Doença degenerativa não inflamatória que atinge as articulações, principalmente nas intervertebrais anteriores, joelhos e quadril.  Sua incidência é mais alta na população feminina principalmente a partir dos 40 anos de idade.

Os sintomas variam entre dor, que piora no final do dia, edema, calor, rigidez e limitação dos movimentos.

Lombalgias: 

Dor na região lombar, aguda ou crônica, leve ou intensa. Pode ou não estar associada a dores ciáticas (lombociatalgia) – dor irradiada para glúteo, perna, coxa ou pé.

Nas pessoas de mais idade, a principal causa da lombalgia é o desgaste das articulações da coluna, seguido pela fraqueza muscular e falta de flexibilidade. Outro fator que é causa das dores é a sobrecarga na coluna e a execução incorreta de alguns movimentos rotineiros.  È importante um trabalho de orientação quanto à postura correta nas AVD´s.

Hernia discal: 

Ruptura do anel fibroso discal, com consequente extravasamento do núcleo pulposo para o canal espinhal, comprimindo as raízes nervosas, causando dor, dormência e fraqueza muscular.

O Método Pilates pode ser aplicado a alunos com essa condição, desde que o profissional seja habilitado a realizar algumas substituições e/ou modificações em determinados exercícios, pelo menos na fase inicial da prática.

Benefícios para o sistema musculoesquelético com a prática do Pilates:

  • Fortalecimento muscular global;
  • Aumento da flexibilidade;
  • Diminuição da rigidez articular;
  • Correção postural, através do fortalecimento do centro de força;
  • Melhora da consciência corporal;
  • Ganho de equilíbrio estático e dinâmico;

Osteoporose: 

Doença metabólica do tecido ósseo, que se caracteriza pela diminuição da massa óssea e desenvolvimento de ossos ocos, fracos e sensíveis, que ficam mais sujeitos a fraturas, seja por pequenos traumas ou espontaneamente. As principais causas são: alterações hormonais da menopausa, história familiar, constituição física magra, raça branca ou asiática, baixa ingestão de cálcio, falta de exposição ao sol, sedentarismo, hábito de fumar, consumo de álcool e café e doenças crônicas debilitantes. 

Os ossos mais afetados por esta patologia, portanto os mais suscetíveis à fratura são: coluna vertebral, fêmur e punho.  A osteoporose pode, também, provocar deformidades ósseas e reduzir a estatura.

A atividade física, alimentação adequada, reposição vitamínica e exposição moderada ao sol são ações benéficas aos alunos com osteoporose.

O método Pilates é uma alternativa eficaz para as mulheres que tem osteoporose, já que fortalece a musculatura geral, melhora a sustentação dos ossos debilitados, ajuda na correção postural e ainda reduz o risco de fraturas. Apenas temos que ter cuidado na execução de alguns movimentos de muita flexão de tronco, rotações exageradas de coluna ou sobrecarga em cima dos punhos.  Alguns estudos sugerem que os exercícios de Pilates consigam promover a manutenção da massa óssea. 

Envelhecimento do Sistema Nervoso:

  • Diminuição e alteração nas sinapses nervosas;
  • Perda de neurônios (a partir dos 30 anos);
  • Diminuição dos receptores cutâneos;
  • Diminuição de 20% do peso do cérebro; 
  • Alterações sensitivas - as modificações estruturais do sistema nervoso do idoso podem ser responsáveis pela falta de tolerância a modificações de temperatura e fácil produção de hipo ou hipertermia, além de um aumento do limiar de dor, devido à diminuição dos receptores cutâneos. 

Dentre as principais patologias neurológicas que podemos encontrar nas pessoas de mais idade praticantes do pilates, destacam-se:

Doença de Parkinson: 

Doença degenerativa do sistema nervoso central, crônica e progressiva. É causada por uma diminuição intensa da produção de dopamina, neurotransmissor que ajuda no controle dos movimentos voluntários do corpo. Principais sintomas: tremores; acinesia ou bradicinesia (lentidão e diminuição dos movimentos voluntários); rigidez (enrijecimento dos músculos, principalmente no nível das articulações); instabilidade postural (dificuldades relacionadas ao equilíbrio, com quedas frequentes). 

Durante as aulas de Pilates, foca-se muito no trabalho de equilíbrio e coordenação motora, essenciais a estes alunos. Sendo assim, consegue-se manter por mais tempo a autonomia na realização das suas atividades de vida diária, contribuindo para uma melhora da autoestima e da qualidade de vida. 

Depressão

Síndrome psiquiátrica caracterizada por humor deprimido, perda de interesse ou prazer pelas atividades e alterações biológicas com repercussões para a vida: redução da capacidade para pensar, interagir, trabalhar.

A prática de exercícios físicos regulares contribui para o bem-estar físico e mental destes pacientes, além de proporcionar maior interação social e trocas afetivas, iniciativas fundamentais para quem enfrenta um quadro de depressão.

Envelhecimento do Sistema Endócrino:

Com o passar dos anos, ocorre redução, modificação e desequilíbrio na produção hormonal. A principal síndrome endócrina que se beneficia com a prática do método Pilates é a diabetes.

Diabetes Mellitus 

Síndrome metabólica que se caracteriza por um excesso de glicose na corrente sanguínea (hiperglicemia), devido a um defeito da produção ou na ação do hormônio insulina.  A função deste hormônio produzido pelo pâncreas é produzir a entrada de glicose nas células. Quando ocorre algum problema nesse mecanismo, a glicose fica acumulada no sangue, o que é chamado de hiperglicemia. A diabetes tipo 2 é a mais comum nesta faixa etária, a qual é conseqüência de uma vida de maus hábitos alimentares e sedentarismo.

Se o seu aluno apresentar como sintomas: aumento da sede, aumento na urina, boca seca, alterações visuais, renais ou neurológicas e boca seca e apresentar a glicose em jejum acima de 126 mg/dl, ele pode estar com essa síndrome. 

O acompanhamento médico é fundamental para tratar de forma global este aluno.  Inúmeros benefícios a esta população com a prática regular do método:

  • Facilitação da queima de glicose pelos músculos;
  • Aumento da ação da insulina;
  • Redução dos fatores de risco cardiovasculares;
  • Melhorara da circulação periférica, principalmente para os membros inferiores;

É importante monitorar a glicemia antes, durante e após a atividade física, evitando a realização de exercício nos picos de glicemia ou em jejum. Convém também monitorar constantemente o estado geral dos pés, para verificar o aparecimento de lesões ou feridas.

Concluindo:

Os benefícios da adoção de um estilo de vida ativo vão muito além de um corpo saudável. O exercício físico promove bem-estar como um todo, melhorando a autoestima e criando uma interação social, através da convivência com outras pessoas e das trocas de experiências.

 O Método Pilates, por ser um sistema de condicionamento físico e mental completo, é uma alternativa segura de exercícios que pode e deve ser indicada a população madura ativa que busca um envelhecimento ativo e saudável.

Referencial Bibliográfico

FREITAS, EV; PY, L. Tratado de Geriatria e Gerontologia – 4ª Edição. Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 2016.

PILATES, J.H. A obra completa de Joseph Pilates: Sua Saúde e O retorno à Vida pela Contrologia (co-autoria de Willian Miller). SP; Phorte, 2010.

PANELLI,C; DE MARCO,A. Método Pilates de Condicionamento do Corpo: um programa para toda a vida. São Paulo: Ph Editora, 2006.

MAZO,G; LOPES,M; BENEDETTI,T. Atividade física e o Idoso. Porto Alegre: Sulina,2001. 

http://www.diabetes.org.br/

http://www.endocrino.org.br/

 http://www.sbgg.org.br/

http://www.abneuro.org/